IA no consultório: o que passa a valer em 26 de agosto
A Resolução CFM 2.454/2026 entra em vigor esta semana, e a exigência mais concreta dela cabe numa linha do prontuário

Desde que assistentes de IA começaram a aparecer em prontuário eletrônico, em triagem de imagem e em resumo de consulta, a pergunta que ficou pendurada no ar foi sempre a mesma: e se der errado, de quem é?
O Conselho Federal de Medicina respondeu. A Resolução CFM nº 2.454/2026, publicada em 27 de fevereiro de 2026, entra em vigor 180 dias depois — 26 de agosto de 2026. Esta semana.
O que a resolução reconhece
Ela reconhece formalmente a inteligência artificial como ferramenta legítima de apoio à prática clínica. Isso importa: não se trata de proibição nem de moratória, e o texto não empurra a tecnologia para uma zona cinzenta de tolerância informal.
O que ela fixa, no mesmo movimento, é o limite. A tecnologia pode auxiliar o raciocínio clínico, mas a autoridade final sobre diagnóstico, conduta e decisão terapêutica permanece exclusivamente do médico.
Não é uma frase decorativa. É o pilar de onde saem todas as outras obrigações — inclusive a que dá mais trabalho.
A exigência que muda a rotina: o registro
Passa a ser obrigatório registrar no prontuário do paciente o uso de sistema de IA como apoio à decisão médica.
É a mudança que mais mexe no dia a dia, porque é a única que acontece a cada atendimento. E é também a mais fácil de subestimar: "registrar" aqui não é um campo burocrático a mais, é o que garante rastreabilidade, permite auditoria futura e sustenta a segurança ético-jurídica tanto do paciente quanto do profissional.
Na prática, isso significa que a sua nota de evolução precisa deixar claro:
que houve apoio de um sistema de IA;
qual sistema;
em que ponto da decisão ele entrou.
Uma linha resolve. "Triagem inicial da imagem com apoio de [sistema]; laudo revisto e conduta definida pelo assistente." O que não resolve é o silêncio — o prontuário que não menciona a ferramenta é um prontuário que, se questionado, não consegue reconstruir como a decisão foi tomada.
Se você usa uma ferramenta de IA embarcada no seu sistema de prontuário, esta é a semana de perguntar ao fornecedor se ele registra isso automaticamente. Muitos ainda não registram.
Para quem tem clínica: os quatro graus
A resolução não se dirige apenas ao médico individual. Instituições que desenvolvem ou utilizam IA passam a ter de fazer uma avaliação preliminar para definir o grau de risco da tecnologia, dentro de quatro graus de classificação.
Risco baixo inclui, por exemplo:
agendamento de consultas;
gestão de insumos hospitalares;
chatbot para informações gerais de saúde;
ferramentas de tradução de prontuário.
Quanto maior o grau de impacto, mais a instituição precisa: governança, monitoramento e avaliação de riscos, com auditoria especializada e acompanhamento contínuo.
A leitura prática para quem administra clínica é que a IA deixou de ser uma decisão de compra e passou a ser uma decisão de conformidade. Contratar uma ferramenta agora vem com um dever de classificar, documentar e acompanhar.
O que fazer nesta semana
Um roteiro mínimo, sem drama:
Liste as ferramentas de IA em uso — inclusive as que ninguém chama de IA: transcrição de consulta, sugestão de código, triagem de exame, resumo de prontuário.
Classifique cada uma pelo grau de risco.
Verifique se o registro no prontuário acontece, e se acontece sozinho.
Escreva uma frase-padrão de registro para a equipe usar, para que ninguém invente a sua na hora.
Guarde a avaliação preliminar de risco por escrito. Auditoria não aceita memória.
O ponto que fica
A resolução não desconfia da tecnologia — ela desconfia da diluição da responsabilidade. É por isso que o eixo do texto não é "o que a IA pode fazer", e sim "quem responde pelo que foi decidido".
Para o médico, isso é uma boa notícia com um preço. A boa notícia é que usar IA é legítimo e está normatizado. O preço é que o registro passou a ser parte do ato, e não um detalhe administrativo. Quem já anota bem vai sentir pouco. Quem conta com o sistema para lembrar por si vai precisar conferir o que o sistema realmente guarda.
Referências
- CFM normatiza uso da IA na medicinaConselho Federal de Medicina · 2026
- CFM regulamenta o uso de inteligência artificial na medicinaMachado Meyer Advogados · 2026
- Resolução do CFM trata do uso de inteligência artificial na medicinaConsultor Jurídico · 2026
- Inteligência artificial na medicina: a Resolução CFM 2.454/2026 e os novos contornos da responsabilidade civilConsultor Jurídico · 2026
Leia também

Sua clínica usa IA sem saber — e agora precisa provar que sabe
A resolução do CFM sobre inteligência artificial não fala só com o médico à beira do leito. Ela cria deveres para a instituição que desenvolve ou usa a tecnologia — e a maior parte das clínicas usa mais IA do que imagina.

ENARE: o que significa disputar vaga com 138 mil pessoas
A edição anterior do Exame Nacional de Residência registrou mais de 138 mil inscritos para mais de 12 mil vagas em 225 instituições. O número muda menos a estratégia de estudo do que a estratégia de escolha.

Somos 635 mil: o que a Demografia Médica 2025 diz sobre a sua carreira
O estudo da FMUSP com a AMB projeta 635.706 médicos em atividade no Brasil ao fim de 2025. Os números não são só estatística: eles descrevem o mercado em que a sua próxima decisão de carreira vai acontecer.
