Dislipidemia: o que a diretriz brasileira de 2025 mudou na estratificação
Cinco categorias de risco, ApoB como exame complementar e metas de LDL que descem até 40 mg/dL
CRM-SP 128740 · Cardiologia

A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou em 2025 a primeira atualização em quase uma década da diretriz de dislipidemias. Quem esperava uma droga nova encontrou outra coisa: a mudança de fôlego está em como se decide quem tratar, e até onde.
Cinco categorias, não quatro
A estratificação passou a trabalhar com cinco degraus de risco cardiovascular:
baixo
intermediário
alto
muito alto
extremo
A categoria de risco extremo é a novidade prática. Ela reconhece o que o consultório já via: o paciente que teve um segundo evento apesar de terapia otimizada não pertence ao mesmo grupo de quem teve o primeiro. Tratá-los com a mesma meta era achatar uma diferença real de prognóstico.
A diretriz é explícita sobre o modelo ser um espectro contínuo de risco, e não uma gaveta. As categorias existem para orientar a meta, não para dispensar o julgamento clínico sobre o paciente à frente.
As metas que chegam ao consultório
Categoria | Meta de LDL-c |
|---|---|
Muito alto risco | < 50 mg/dL |
Risco extremo | < 40 mg/dL |
Uma meta de LDL abaixo de 40 mg/dL raramente se alcança com estatina isolada. Ela pressupõe combinação — estatina de alta potência com ezetimiba, e inibidor de PCSK9 quando a diferença até a meta persiste. Na prática, adotar a categoria de risco extremo é aceitar que a terapia combinada deixa de ser exceção para esse grupo.
ApoB: onde ela realmente muda a conduta
A diretriz amplia as recomendações de uso da apolipoproteína B como ferramenta complementar na avaliação de risco. O motivo é mecanístico e simples: cada partícula aterogênica carrega uma molécula de ApoB, então dosar ApoB é contar partículas, enquanto dosar LDL-c estima o colesterol dentro delas.
Nos pacientes em que essas duas coisas andam juntas, tanto faz. Nos pacientes em que elas se descolam, importa muito — e elas se descolam justamente onde há mais risco:
diabetes;
obesidade;
triglicérides elevados;
síndrome metabólica, em que se descreve cerca de 20% de discordância entre LDL-c e ApoB.
O paciente com síndrome metabólica e LDL-c de 95 mg/dL parece controlado. Se a ApoB dele estiver alta, ele tem muitas partículas pequenas e densas, cada uma com pouco colesterol — carga aterogênica alta com LDL-c "bom". É esse paciente que se perde quando só se olha o LDL.
Lp(a): uma vez na vida
A lipoproteína(a) aparece como exame complementar na estratificação. Ela é determinada geneticamente e praticamente não muda ao longo da vida, o que faz dela um exame de dosagem única — não de acompanhamento.
O uso mais rentável é reclassificar quem está na fronteira entre duas categorias. Um paciente de risco intermediário pelos fatores clássicos, com Lp(a) elevada e história familiar de evento precoce, provavelmente não é intermediário. É essa a pergunta que o exame responde.
Como aplicar sem virar burocracia
Um roteiro que cabe numa consulta:
Estratifique antes de olhar o LDL. A meta depende da categoria; ler o resultado sem a categoria na cabeça é decidir ao contrário.
Defina a meta e diga o número ao paciente. "Seu LDL precisa ficar abaixo de 50" é acionável; "seu colesterol está alto" não é.
Peça ApoB quando houver diabetes, obesidade ou triglicérides elevados. Fora desses cenários, ela raramente muda a conduta.
Dose Lp(a) uma vez — em especial diante de história familiar de doença aterosclerótica precoce ou de risco na fronteira entre categorias.
Reavalie a terapia contra a meta, não contra o valor anterior. Cair de 160 para 90 é uma boa resposta e ainda assim é falha terapêutica em quem precisa de menos de 50.
O ponto de fundo da atualização é esse: a dislipidemia deixou de ser tratada por número absoluto e passou a ser tratada por distância até a meta do paciente. Dois pacientes com o mesmo LDL-c podem estar um na meta e o outro longe dela — e a diferença não está no exame, está na estratificação que veio antes.
Referências
- Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025Arquivos Brasileiros de Cardiologia / Sociedade Brasileira de Cardiologia · 2025
- Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (texto integral)Arquivos Brasileiros de Cardiologia · 2025
- Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025: mudanças na estratificação de risco e metas de LDLMedscape · 2026
Quem escreveu
Ana Ferreira LimaCRM-SP 128740 · Cardiologia
Cardiologista com atuação em atenção primária e ensino médico. Escreve sobre condutas de consultório.
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