Doença renal crônica: por que a creatinina sozinha não rastreia
Metade do diagnóstico está na albuminúria, e é a metade que quase nunca é pedida
CRM-RJ 654321 · Nefrologia

Há um paciente que passa despercebido em quase todo consultório. Ele tem creatinina de 0,9. A taxa de filtração glomerular estimada dele dá 95. O laudo volta com tudo dentro da referência, e a consulta segue para outro assunto.
Ele tem doença renal crônica.
O que ninguém pediu foi a relação albumina-creatinina urinária, que daria 120 mg/g. E é essa a metade do diagnóstico que se perde com mais frequência.
A definição tem dois eixos, não um
O KDIGO define doença renal crônica como anormalidade de estrutura ou função renal presente por pelo menos três meses, caracterizada por:
taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 60 mL/min/1,73 m²; ou
ao menos um marcador de dano renal — e o mais acessível deles, de longe, é a albuminúria.
O "ou" é o ponto inteiro. Filtração preservada não exclui doença renal crônica. Quem rastreia só com creatinina está lendo um dos dois eixos e concluindo sobre os dois.
A tabela de duas entradas
O prognóstico não sai de um número, sai do cruzamento de dois. As categorias de filtração vão de G1 a G5; as de albuminúria, de A1 a A3:
A1 (< 30 mg/g) | A2 (30–300 mg/g) | A3 (> 300 mg/g) | |
|---|---|---|---|
G1 (≥ 90) | sem DRC* | DRC | DRC |
G2 (60–89) | sem DRC* | DRC | DRC |
G3a (45–59) | DRC | DRC | DRC |
G3b (30–44) | DRC | DRC | DRC |
G4 (15–29) | DRC | DRC | DRC |
G5 (< 15) | DRC | DRC | DRC |
* na ausência de outro marcador de dano.
Dois pacientes com a mesma TFG de 50 e albuminúrias de 20 e de 500 mg/g não têm o mesmo risco de progressão, de evento cardiovascular nem de mortalidade. Tratá-los igual porque a creatinina é a mesma é o erro que a tabela existe para impedir.
Quando a creatinina engana
A creatinina é um produto do metabolismo muscular, e é por isso que ela mente em situações previsíveis:
massa muscular muito alta ou muito baixa;
amputação;
cirrose;
desnutrição, sarcopenia, idoso frágil;
dieta com carga proteica atípica.
Nesses casos, e sempre que a decisão depender de precisão — ajuste de dose de medicamento com janela estreita, indicação de contraste, encaminhamento para transplante — a diretriz orienta confirmar a estimativa com cistatina C, que não depende de massa muscular. As equações combinadas de creatinina e cistatina C são as mais próximas da filtração medida.
Como isso muda o pedido de exame
Rastreamento de doença renal crônica em paciente de risco — hipertenso, diabético, com doença cardiovascular estabelecida, com história familiar, em uso crônico de nefrotóxico — é um par de exames, não um:
creatinina sérica, com TFG estimada relatada pelo laboratório;
relação albumina-creatinina em amostra isolada de urina.
Amostra isolada, de preferência a primeira da manhã. Urina de 24 horas não é necessária para rastreio e é onde a coleta costuma falhar.
E, porque a definição exige três meses: um exame alterado não fecha diagnóstico. Albuminúria pode subir transitoriamente com febre, exercício intenso, infecção urinária, hiperglicemia aguda e insuficiência cardíaca descompensada. Repita antes de rotular.
O que se ganha em achar cedo
Encontrar albuminúria com filtração ainda preservada é encontrar a doença na janela em que ela responde. O KDIGO 2024 reforça uma abordagem combinada para retardar progressão:
inibidor de SGLT2 na doença renal crônica com proteinúria, com ou sem diabetes;
bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona para controle pressórico e redução de proteinúria;
estatina para reduzir risco cardiovascular aterosclerótico.
Nenhum desses três chega ao paciente cujo diagnóstico não foi feito. E o paciente cujo diagnóstico não foi feito, na esmagadora maioria das vezes, é aquele em que se pediu creatinina e se parou por ali.
Um roteiro curto
Paciente de risco: peça creatinina e relação albumina-creatinina, juntas.
Alterou: repita em três meses antes de rotular.
Confirmou: estratifique pelo cruzamento G × A, não pela TFG isolada.
Creatinina pouco confiável, ou decisão de dose: confirme com cistatina C.
Albuminúria presente: a conversa sobre SGLT2, bloqueio do SRAA e estatina começa aí, não quando a filtração cair.
Referências
- KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney DiseaseKidney International · 2024
- CKD Evaluation and ManagementKDIGO · 2024
- KDOQI US Commentary on the KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKDAmerican Journal of Kidney Diseases · 2025
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