Fibrilação atrial: o que muda na consulta com o AF-CARE
O escore perdeu uma letra, a comorbidade virou o primeiro passo e anticoagular deixou de ser a primeira pergunta
CRM-SP 128740 · Cardiologia

A fibrilação atrial é a arritmia sustentada mais comum do consultório, e por muito tempo o roteiro da consulta foi o mesmo: calcular o escore, decidir sobre anticoagulação, escolher entre controlar frequência ou ritmo. A diretriz europeia de 2024 não trouxe uma droga nova nem um exame novo — ela mudou a ordem desse roteiro, e mudou a aritmética do escore. As duas coisas cabem numa consulta de retorno.
O escore perdeu uma letra
O CHA₂DS₂-VASc virou CHA₂DS₂-VA. Saiu o "Sc", a categoria de sexo feminino.
A mudança não é cosmética. Sexo feminino valia um ponto, e era o ponto que empurrava para dentro da faixa de anticoagulação um grupo grande de mulheres cujo risco absoluto, isolado, não justificava a decisão. A leitura atual é que o sexo funciona como modificador do risco ao longo da vida, não como fator de risco independente que se soma como os outros.
Na prática do consultório: uma mulher de 68 anos, hipertensa, sem mais nada, somava 3 pelo escore antigo (idade 65–74, hipertensão, sexo). Agora soma 2. Continua com indicação de anticoagulação — mas por hipertensão e idade, não por ser mulher. Já uma mulher de 66 anos sem comorbidade nenhuma somava 2 e agora soma 1, e sai da recomendação forte para a zona de decisão compartilhada.
Os limiares em si continuam onde estavam:
CHA₂DS₂-VA | Conduta |
|---|---|
0 | Anticoagulação não indicada |
1 | Anticoagulação deve ser considerada |
≥ 2 | Anticoagulação recomendada |
Vale recalcular o escore dos pacientes que você já acompanha. Alguns vão mudar de faixa.
Comorbidade virou o primeiro pilar, não o último
A diretriz organiza o manejo em quatro pilares, e a ordem das letras é a mensagem — AF-CARE:
[C] Comorbidity — comorbidades e fatores de risco
[A] Avoid stroke — evitar AVC e tromboembolismo
[R] Reduce symptoms — reduzir sintomas com controle de frequência ou ritmo
[E] Evaluate — avaliar e reavaliar dinamicamente
Comorbidade em primeiro lugar é uma inversão deliberada. Na prática antiga, o controle de pressão, peso, álcool, apneia do sono e sedentarismo entrava como recomendação genérica no fim da consulta, depois que as decisões "de verdade" já tinham sido tomadas. A diretriz coloca isso como o passo que se aplica a todos os pacientes com fibrilação atrial, independentemente do risco tromboembólico — porque é o que muda a história natural da arritmia, e não só o risco de evento.
Traduzindo para a consulta: perguntar sobre consumo de álcool e sobre ronco e sonolência diurna deixa de ser detalhe de anamnese e vira parte do tratamento da arritmia.
Anticoagular: com quê
Anticoagulante oral direto — apixabana, dabigatrana, edoxabana, rivaroxabana — é preferido ao antagonista da vitamina K. As duas exceções em que a varfarina continua sendo a escolha:
prótese valvar mecânica;
estenose mitral moderada a grave.
Fora disso, a discussão prática deixou de ser "DOAC ou varfarina" e passou a ser qual DOAC, em que dose, e como garantir adesão — que é onde a maior parte das falhas terapêuticas realmente acontece.
Frequência ou ritmo
Para controle de frequência, betabloqueador, digoxina ou diltiazem/verapamil (estes com fração de ejeção acima de 40%) servem como terapia inicial ou monoterapia, guiados por sintoma.
Para controle de ritmo, a ablação por cateter ganhou espaço:
primeira linha na fibrilação atrial paroxística, para pacientes selecionados;
segunda linha na persistente, depois de falha de antiarrítmico.
Um ponto que se esquece com frequência: após a ablação, todo paciente mantém anticoagulante oral por pelo menos dois meses, independentemente do escore. E o escore volta a mandar depois disso — ablação bem-sucedida não é alta da anticoagulação em quem tem risco.
O que levar para a próxima consulta
O quarto pilar, o de reavaliação, é o mais fácil de deixar cair. O escore não é um número que se calcula uma vez e se anota no prontuário: um paciente que somava 1 aos 64 anos soma 2 aos 65 sem que nada mais tenha acontecido com ele. A insuficiência cardíaca que apareceu no ano passado, o diabetes diagnosticado no último exame, o AVC do irmão que motivou uma investigação — cada um desses muda a conta.
Três perguntas que resolvem a maior parte do retorno:
O escore ainda é o mesmo de quando decidimos?
As comorbidades que sustentam a arritmia estão sendo tratadas, ou só listadas?
O paciente está de fato tomando o anticoagulante — e sabe por que toma?
A terceira é a que mais rende. Anticoagulação prescrita e não tomada é a modalidade mais comum de falha terapêutica em fibrilação atrial, e ela não aparece em exame nenhum.
Referências
- 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation developed in collaboration with the European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS)European Heart Journal · 2024
- 2024 ESC Guidelines for Management of Atrial Fibrillation: Key PointsAmerican College of Cardiology · 2024
- 2024 ESC Clinical Practice Guidelines for the Management of Atrial FibrillationEuropean Society of Cardiology · 2024
- '10 commandments' for the 2024 European Society of Cardiology guidelines on atrial fibrillationEuropean Heart Journal · 2025
Quem escreveu
Ana Ferreira LimaCRM-SP 128740 · Cardiologia
Cardiologista com atuação em atenção primária e ensino médico. Escreve sobre condutas de consultório.
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